A salvação pela fé [parte II]

“Pela graça sois salvos, por meio da fé.” — Efésios 2:8

  1. Que fé é essa pela qual somos salvos.
  2. Que salvação é essa que se dá pela fé.
  3. Como podemos responder a algumas objeções.

II. Que salvação é essa que se dá pela fé?

Que salvação é esta, que vem por meio da fé, é o segundo ponto a ser considerado.

1. E, primeiro, seja o que for que mais ela implique, trata-se de uma salvação presente. É algo alcançável, sim, realmente alcançado, aqui na terra, por aqueles que são participantes desta fé.

Pois assim diz o apóstolo aos crentes em Éfeso — e, neles, a todos os crentes de todas as eras — não: Sereis salvos (ainda que isso também seja verdade), mas: "Sois salvos pela fé."

2. Sois salvos — para reunir tudo em uma só palavra — do pecado. Esta é a salvação que vem pela fé. Esta é a grande salvação predita pelo anjo antes que Deus trouxesse ao mundo o seu Primogênito:

“E chamarás o seu nome Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.” E nem aqui, nem em qualquer outra parte das Escrituras Sagradas, há limitação ou restrição alguma.

Todo o seu povo — ou, como se expressa em outro lugar, “todos os que crêem nele” — ele salvará de todos os seus pecados: do pecado original e atual, passado e presente, “da carne e do espírito.” Pela fé nele, são salvos tanto da culpa quanto do poder do pecado.

3. Primeiramente, da culpa de todo pecado passado: pois, sendo todo o mundo culpado diante de Deus — a ponto de que, se Ele “observar as iniquidades, quem subsistirá?” — e sendo que “pela Lei vem apenas o conhecimento do pecado,” mas não sua libertação, de modo que “pelas obras da Lei nenhuma carne será justificada diante Dele”: agora, “a justiça de Deus, que é pela fé em Jesus Cristo, se manifesta a todos os que crêem.”

Agora, “são justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.” A este, Deus propôs como propiciação pela fé em seu sangue, “para demonstração da sua justiça, pela remissão dos pecados dantes cometidos.”

Agora Cristo removeu “a maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós.” Ele “riscou a cédula que era contra nós, cravando-a na cruz.” “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que crêem em Cristo Jesus.”

4. E, sendo salvos da culpa, são também salvos do medo. Não, de fato, do temor filial de ofender; mas de todo temor servil — daquele medo que atormenta, do medo do castigo, do medo da ira de Deus, a quem agora já não veem como um Senhor severo, mas como um Pai indulgente.

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!”

O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. São também salvos do medo — ainda que não da possibilidade — de caírem da graça de Deus e perderem as grandes e preciosas promessas.

Assim têm eles “paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.” Regozijam-se na esperança da glória de Deus. E “o amor de Deus é derramado em seus corações, pelo Espírito Santo que lhes foi dado.”

E, por isso, estão persuadidos (ainda que talvez nem sempre, ou com a mesma plenitude de persuasão), de que “nem morte, nem vida, nem coisas presentes, nem futuras, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separá-los do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

5. Ainda mais: por meio dessa fé, são salvos não apenas da culpa, mas também do poder do pecado. Assim declara o apóstolo:

“Bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado. Todo aquele que permanece nele não peca” (1 João 3:5ss)

E novamente: “Filhinhos, ninguém vos engane: aquele que comete pecado é do diabo.” “Todo aquele que crê é nascido de Deus.” “E todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque a semente de Deus permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.”

Mais uma vez: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; mas o que de Deus é gerado guarda a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 João 5:18).

6. Aquele que, pela fé, é nascido de Deus não peca:

(1) por pecado habitual, pois todo pecado habitual é pecado reinante — mas o pecado não pode reinar em quem crê.

Nem (2) por pecado voluntário, pois sua vontade, enquanto permanece na fé, está completamente voltada contra todo pecado, e o aborrece como a um veneno mortal.

Nem (3) por desejo pecaminoso, pois deseja continuamente a santa e perfeita vontade de Deus — e qualquer tendência a um desejo impuro, pela graça de Deus, ele sufoca ainda no nascimento.

Nem (4) por fraquezas, seja em ação, palavra ou pensamento; pois suas fraquezas não têm o consentimento da vontade, e sem isso não são propriamente pecados. Assim, “aquele que é nascido de Deus não comete pecado”; e embora não possa dizer que nunca pecou, agora pode dizer que não peca mais.”

7. Esta, então, é a salvação que vem pela fé, ainda neste mundo presente: uma salvação do pecado e das consequências do pecado, frequentemente expressa na Escritura pela palavra justificação, que, tomada em seu sentido mais amplo, implica libertação da culpa e do castigo — pela expiação de Cristo aplicada de fato à alma do pecador que agora crê — e libertação do poder do pecado, por Cristo formado no coração.

De modo que aquele que é assim justificado, ou salvo pela fé, é, de fato, nascido de novo. É nascido do Espírito para uma nova vida, a qual “está escondida com Cristo em Deus.”

E, como uma criança recém-nascida, recebe com alegria o leite racional e puro da palavra, e por ele cresce; prosseguindo na força do Senhor, seu Deus, de fé em fé, de graça em graça, até que finalmente alcance “a estatura de varão perfeito, à medida da plenitude de Cristo.”


Sermão Pregado em Santa Maria, Oxford, perante a universidade, em 18 de junho de 1738

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