E o pecado? Uma resposta bíblica a Victor Azevedo

Por mais belo e agradável que seja ouvir e dizer, declarar que Deus não se ira com pessoas é abrir as portas para a mais terrível heresia, que acompanha o cristianismo há séculos: o universalismo.

Longe de ser um ataque pessoal ou uma crítica à pessoa de Victor Azevedo, e em consonância com uma excelente reflexão publicada por Victor Fontana em seu canal no YouTube (Citando nome dos hereges), nosso objetivo neste artigo é analisar os perigos emaranhados na teologia explicitada em suas mensagens, em especial, na pregação intitulada "E o pecado?".

Um perigoso flerte com o Universalismo

Logo no início de sua mensagem, Victor Azevedo toma como base o texto de Efésios 2:3 e desenvolve o argumento que se articula entorno da ideia de que somos merecedores da ira de Deus por natureza e não por desobediência.

E, sob essa alegação, ele afirma categoricamente que Deus não se ira com pessoas, mas sim com a natureza pecaminosa.

"Deus não se ira com pessoas, até porque Deus fez as pessoas" — Victor Azevedo

Podemos dividir o argumento de Victor Azevedo em duas premissas 1) Deus não se ira com pessoas e 2) Deus se ira com a natureza pecaminosa.

Embora, para os menos atentos, ele consiga tomar como base o texto de Paulo aos Efésios e desenvolver sua linha de raciocínio de forma aparentemente coerente, se levarmos às últimas consequências as premissas apresentadas por Azevedo depararemos com sérios problemas teológicos:

  1. Deus se ira contra a natureza pecaminosa;
  2. Deus não se ira contra pessoas;
  3. O inferno é o derramar da ira e da justiça de Deus;
  4. Logo não haverá pessoas no inferno.

Por mais belo e agradável que seja ouvir e dizer, declarar que Deus não se ira com pessoas é abrir as portas para a mais terrível heresia, que acompanha o cristianismo há séculos: o universalismo.

A questão que se levanta, diante disto, é se a Bíblia Sagrada nos oferece respaldo para afirmarmos algo sobre a ira de Deus derramada sobre os homens?

Por natureza, filhos da ira

O grande problema de Azevedo se encontra em sua interpretação equivocada do texto de Paulo à Igreja de Éfeso.

"Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também" — Efésios 2:3

Em primeiro lugar não encontramos nas Escrituras Sagradas nenhum subsídio que nos permita a separação da natureza pecaminosa e o homem, como se a natureza ímpia fosse uma entidade que se apossasse do corpo humano.

O que Paulo declara não é que existe uma separação entre o homem e a natureza pecaminosa, tal como Victor Azevedo afirma.

Para o Apóstolo é mais do que evidente que, enquanto caminha na carne, o homem é filho da ira.

Ao declarar que "éramos por natureza filhos da ira" o Apóstolo está reafirmando a doutrina da depravação total e a realidade na qual a humanidade está inserida.

Após a Queda todo homem e toda mulher que vem ao mundo nasce debaixo da maldição do pecado e, naturalmente, à medida que vive irão se inclinar à transgressão e à desobediência.

Em Romanos 3:9-23, após discorrer sobre o estado de depravação da raça humana, o Apóstolo Paulo nos apresenta a consequência daqueles que estão em pecado, todos estão destituídos da glória de Deus.

Só pode ser destituído aquele que comete alguma transgressão e, se Deus se ira somente contra a transgressão cometida e não contra o transgressor, não há porque destituí-lo.

Em sua conversa com Nicodemos Jesus declara que aquele que "... crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado; porquanto não crê no nome do Unigênito Filho de Deus" (João 3:18).

O Apóstolo João deixa evidente não apenas a realidade da salvação para aqueles que creem, mas também a realidade da condenação, não num futuro eterno, mas atual na qual se encontra todo aquele que não crê.

E, ao escrever à igreja de Éfeso, o Apóstolo traça o mesmo paralelo.

Paulo inicia sua epístola louvando ao Senhor por Sua livre iniciativa em salvar os homens por intermédio de Cristo Jesus e, logo no início do segundo capítulo, começa comparar a antiga vida e, agora, a nova vida em Cristo.

Antes estávamos mortos, andávamos segundo o curso deste século, éramos filhos da desobediência, mas agora, vivificados em Cristo, passamos a caminhar com Ele nos lugares celestiais (vv. 1-6).

Embora Victor Azevedo seja extremamente carismático e agradável de se ouvir, sua teologia se choca frontalmente contra as Escrituras Sagradas ao desassociar, erroneamente, o pecador do pecado ou, nos termos apresentado por ele, o pecador da natureza pecaminosa.

Sim, Deus se ira com pessoas

O grande malabarismo teológico feito por Azevedo na realidade tem um único objetivo: encaixar as declarações bíblicas acerca da ira de Deus dentro de sua visão distorcida do amor.

Ao desassociar o pecado do pecador e afirmar que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador, o que Victor Azevedo procura é suavizar a ira de Deus desviando-a do ser humano sob o argumento de que Deus é amor e o Seu amor é a base do evangelho (o que é uma completa ignorância).

Contudo, as Escrituras nos apontam na direção oposta, e nos apresenta a realidade da ira de Deus sobre os pecadores e sobre todos os transgressores.

Ao desenvolver seu argumento apresentado no primeiro capítulo da epístola aos romanos, o Apóstolo Paulo declara abertamente que o homem que permanece em seu estado de queda está acumulando para si a Ira de Deus.

"Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras a ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; O qual recompensará cada um segundo as suas obras" — Romanos 2:5,6

Nos versículos seguintes o Apóstolo apresenta a recompensa que Deus concederá aos homens: "[...] vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal" (vv. 7-9).

Em momento algum o Apóstolo separa a natureza pecaminosa do homem ímpio, em momento algum ele afirma que Deus derramará sua ira sobre a natureza pecadora e não sobre o pecador.

Ao contrário do que Victor Azevedo gostaria de encontrar, Paulo declara que "tribulação e angústia [será derramada] sobre toda a alma do homem que faz o mal".

Poderíamos transcorrer por dezenas, senão centenas, de outros textos que tratam sobre o derramar da Ira de Deus sobre o homem que permanece em sua rebelião velada contra o Criador, mas os versos apresentados são bastante conclusivos.

Principalmente se considerarmos que o texto utilizado por Victor Azevedo para sustentar sua tese foi escrito pela mesma pena.

Mas ele está salvando pessoas...

Ao contrário da predisposição dos cristãos de nossos dias em crer e aceitar tudo o que se apresenta a eles, a Escritura é enfática e clara ao nos recomendar uma postura crítica diante daqueles que se declaram enviados de Deus.

"Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo" — 1 João 4:1

Jonathan Edwards ressalta que "... à medida que as influências do verdadeiro Espírito abundavam [durante o período apostólico], também as falsificações se disseminavam; o Diabo fartou-se em imitar as obras do Espírito de Deus" e a mesma realidade se aplica ainda hoje.

O Apóstolo Paulo, por sua vez, nos declara que adesão de pessoas e aceitação da mensagem pregada não é sinônimo de integridade bíblica.

"Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tento comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências" — 2 Timóteo 4:3

Ou seja, não podemos tomar critério validador do ministério de alguém o número de seguidores, o que estes seguidores sentem em relação à mensagem que lhes é pregada ou ainda o sucesso dos métodos utilizados para o crescimento da igreja.

Números, sentimentos e métodos não são fundamentos seguros para nos apoiarmos.

"Sabemos por intermédio das próprias Escrituras, por exemplo, que o evangelho frequentemente não produz uma resposta positiva. Por outro lado, as mentiras satânicas e o engano podem ser bastante eficazes" — MacArthur

Argumentar que pessoas estão aderindo, estão mudando de vida ou estão sendo tocadas pelas mensagens a fim de validar tal mensagem é andar na contramão do que o texto bíblico nos indica. "A reação da maioria não é um parâmetro seguro para determinar o que é válido" (MacArthur). Isso não passa de pragmatismo!

Quando o pragmatismo [...] é utilizado para formularmos juízos acerca do certo e do errado ou quando se torna a filosofia norteadora da vida, da teologia e do ministério, acaba, inevitavelmente, colidindo com as Escrituras.

" verdade espiritual e bíblica não é determinada baseando-se no que 'funciona' ou no que 'não funciona'" — MacArthur

A revelação bíblica deve ser o filtro a ser utilizado para validar ou não pregações, ministérios ou movimentos e não o contrário!

Portanto, partir do argumento de que há pessoas que foram alcançadas pelas pregações de Victor Azevedo como critério para avaliar positivamente a mensagem que ele tem pregado é o mesmo que afirmar que a ideologia/cosmovisão do caminho largo é válida simplesmente porque é a mais seguida.

Diante disto qual a postura a seguir?

Por mais que seja agradável o que Victor Azevedo prega não podemos negar que ele deturpa, terrivelmente, as bases da fé cristã e, aliado à outras inúmeras declarações, percebemos que ele tem seguido um sério e progressivo desvio teológico.

Não creio que exista uma fórmula mágica, mas sinceramente defendo que devemos retornar à centralidade bíblica, devemos retornar à historicidade da interpretação do texto sagrado e ao desenvolvimento teológico em comunidade.

Parte dos problemas teológicos que estamos presenciando em nossa geração foram muito bem respondidos e solucionados durante o desenvolvimento da Igreja.

"[...] quando Azevedo diz que “não precisa de teologia, religião e doutrina, pois só Jesus basta” ele fortalece esse espírito individualista de nosso tempo" — Santos

Victor Azevedo não foi o primeiro e não será o último a seguir pela estrada da "não teologia", mas continuar perpetuando esta ideia em detrimento do desenvolvimento saudável da Igreja é um atentado ao Corpo de Cristo.

Devemos abandonar a doentia ideia individualista de que Deus me revelará algo novo. Tudo o que precisamos saber já foi revelado nas Escrituras e as ferramentas que necessitamos estão disponíveis graças aos dois mil anos de pensamento teológico.


EDWARDS, Jonathan. A verdadeira obra do Espírito Santo: sinais de autenticidade. Tradução Valéria Fontana. 2 ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2010.

MACATHUR, John. Com vergonha do evangelho. Tradução Eros Pasquini Jr. São José dos Campos: Editora Fiel, 2014.

SANTOS, Victor. Um papo honesto sobre Victor Azevedo. Disponível em: https://medium.com/@Victor.Santos/um-papo-honesto-sobre-victor-azevedo-a82ceb29e3f0

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