A besta, o falso profeta e a idolatria política

Embora não creia que estejamos vivendo o Apocalipse, os eventos referentes à Grande Tribulação indicados por Cristo no Sermão Profético, nem mesmo o princípio das dores, entendo que todas as catástrofes, as crises e as movimentações políticas são, de algum modo, arquétipos do que ainda há de vir.

Indiferente se seu posicionamento escatológico pende para o pós-tribulacionismo ou para o pré-tribulacionismo é inegável o fato de que os eventos descritos nas Escrituras e identificados como “A Grande Tribulação”, ainda não iniciaram e o Apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 2 nos indica o motivo disto.

Talvez num próximo texto abordemos, mais detalhadamente, o porque não creio que estejamos vivendo a Grande Tribulação e nem mesmo as “dores de parto” que Jesus declara no Sermão Profético, mas sim as “dores de parto” que o Apóstolo Paulo escreve em Romanos 8:22.

Dado este breve aviso buscaremos compreender, guardando as devidas proporções, as figuras utilizadas pelo Apóstolo João em Apocalipse 13 como ponto de partida para a compreensão do que estamos vivendo hoje.


A besta que subiu do mar

"… e vi subir do mar uma besta" — Apocalipse 13.1

O Apóstolo João se coloca na praia e vê subindo do mar uma besta, um animal completamente distinto de qualquer outro que ele já havia visto e, em sua descrição, declara que ela era semelhante ao leopardo, seus pés pareciam de urso e a sua boca era semelhante à boca do leão (v. 2).

Para um leitor cuidadoso a descrição dada pelo Apóstolo João soa bastante familiar e, de fato, ele não está apresentando uma ideia nova ou uma visão exclusiva.

O profeta Daniel, ainda no século quarto antes de Cristo, já havia pisado na mesma “areia profética” e visto a mesma besta subir do mar.

"Eu estava olhando, na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu combatiam no mar grande. E quatro animais grandes, diferentes um dos outros subiam do mar" — Daniel 7:2,3

A descrição fornecida pelo profeta dos quatro animais nos remente, inevitavelmente, à besta descrita por João no Apocalipse, mais precisamente ao quarto animal visto por Daniel e que, agora, se levantava diante de João em Apocalipse.

Mas o que ou quem seria a besta que subia do mar? O próprio Deus nos revela a identidade dos animais em Daniel e, desta forma, nos fornece a chave para a compreensão do texto do Apóstolo João.

No versículo dezessete lemos que os “… grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da terra”.

A primeira parte da compreensão é fornecida de maneira muito clara, os quatro animais são representações proféticas do poder de quatro reis que se levantariam sobre o mundo.

Desta forma podemos afirmar que a besta vista por João no Apocalipse representa um governante que se levantará no cenário político mundial.

Entretanto, mesmo diante da resposta conclusiva sobre a figura do quarto animal, o profeta Daniel questiona acerca de sua identidade.

A resposta lhe é dada, o quarto animal será o quarto reino na terra, diferente de todos os outros, será de domínio global, devorará e pisará todo o mundo (v. 23).

O profeta Daniel registra ainda que deste reino se levantarão dez reis, que são as dez pontas ou chifres, mas que após eles se levantará um, diferente dos outros, que destruirá três destes reis e se tornará grande e influente (v. 24).

Este rei professará blasfêmias contra Deus, perseguirá e destruirá os santos, desejará mudar os tempos e as leis estabelecidas pelo Altíssimo e seu poder será de “um tempo, e tempos, e metade dum tempo” ou, como o Apóstolo João escreve, durará “quarenta e dois meses” (Daniel 7:5; Apocalipse 13:5–7).

A besta que subiu da terra

"E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão" — Apocalipse 13:11

O Apóstolo João nos apresenta ainda outra besta, diferente da primeira esta não dominava os homens com seu poderio político, mas com a religião.

"E a besta foi presa, e com ela o falso profeta, que diante dela fizera os sinais, com que enganou os que receberam o sinal da besta, e adoraram a sua imagem" — Apocalipse 19:20

Engana-se os que pensam que o objetivo máximo de Satanás é destruir a religião, extingui-la da face da terra.

Engana-se, mais ainda, aqueles que creem que retirar o culto à divindade da sociedade é a demonstração máxima da evolução humana ou que, inevitavelmente, todos abandonaremos as “práticas primitivas”.

O ser humano é um ser religioso, substitua Deus por qualquer outro propósito ou objetivo e você tem a sua religião. Compreendendo, mesmo que superficialmente, esta questão somos capazes de entender um pouco mais os versos seguintes da profecia do Apóstolo João.

Após apresentar a figura da segunda besta, ou o falso profeta, João declara que o seu propósito e objetivo será enganar os habitantes da terra para que eles adorem à imagem da primeira besta, estabelecendo a pena de morte aos que desobedecerem.

Ao longo da história inúmeros arquétipos do anticristo se levantaram, desde os imperadores romanos, até figuras como Adolf Hitler ou Stalin. E sabendo o que aconteceu no passado conseguimos projetar, mesmo que imprecisamente, o futuro.

Insira na mesma equação poderio político e militar, adicione um pouco de humanismo e encontramos o cenário perfeito para que o espírito do anticristo se desenvolva.

A besta que subia do mar era imponente, poderosa, ninguém podia batalhar contra ela. Por sua vez, a besta que subia da terra enganava os homens com sinais, prodígios e maravilhas (v. 13), conduzindo os homens à adoração do anticristo, adoração ao homem, ao seu poder, à sua glória e aos seus feitos.

Retire Deus da equação e o ser humano passará a adorar e venerar qualquer outra coisa, a ciência, o poder, o dinheiro, os prazeres, o Estado ou, em casos evidentes de uma entrega completa e desmedida ao sistema do anticristo, adorarão aos políticos (será que isso não te lembra alguma coisa?!).

"Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis" v. 18

Ao contrário da direção seguida por muitos, o número da besta apresentado pelo Apóstolo não se trata simplesmente de uma sequência numérica, de um código de barras, muito menos de um microchip.

Da mesma forma que há homens que têm “assinalado nas [suas] testas [a identificação dos] servos do nosso Deus” (Apocalipse 7:3 — Leia também Ezequiel 9:3–5), haverá também aqueles que receberão, da besta, “um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas” (Apocalipse 13:16).

O conceito é muito mais profundo do que apenas uma marca física, é mais amplo do que apenas uma identificação eletrônica ou um microchip (recomendo que leia nosso outro artigo: "Um ensaio sobre a Marca da Besta - Propósito e Natureza").

A marca da besta apresentada pelo Apóstolo João é resultado direto da submissão e adoração dos homens à imagem da besta. Trata-se de uma ação consciente e voluntária ao sistema instaurado pelo anticristo e pelo falso profeta.

Portanto, a recepção coletiva do anticristo, a adoração à sua imagem e a aceitação da identificação que assinala os simpatizantes de seu sistema político-religioso representa a última e fracassada tentativa do coração humano em seu intento perverso de se edificar, tocar os céus e de fazer um nome para si (Gênesis 11:4).

Idolatria Política

Aqui inserimos o elemento final, a idolatria política. Ao contrário do que muitas vezes imaginamos, o anticristo não tomará o poder à força, não subirá ao controle através de artifícios militares ou através de uma sangrenta batalha.

O cenário que o Apóstolo João nos apresenta não apenas nos revela essa verdade, mas também nos alerta para uma realidade ignorada por grande parte da cristandade.

"E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?" Apocalipse 13:4

O mundo não apenas aceitará a figura do Anticristo, mas o adorará, exaltará suas façanhas e capacidades. Não será apenas um líder político, mas a cabeça de um movimento religioso.

Neste aspecto, a adoração cega a políticos (até mesmo dentro do cristianismo) chega soar terrivelmente pecaminosa. Projetar sobre uma figura política a imagem de um messias escatológico que salvará a Nação de uma destruição iminente nada mais é do que se curvar na areia da praia diante das duas bestas.

O mais assombroso, no entanto, é que estamos assistindo ao ensaio, a preparação para o ato final da história humana que será interpretado não apenas pelos poderes estatais e pelas figuras políticas, mas também, e lamentavelmente, por uma grande parcela daqueles que professam o cristianismo.

O que afirmo, contudo, não é que devemos nos retirar das esferas públicas ou que devemos limitar nossa atuação cristã ao contexto privado e ao culto religioso. Pelo contrário!

Dirijo-me aos que, cegamente, abraçaram a figura de um político como sendo a própria figura de Deus, o representante da verdade, a própria encarnação divina e é aqui que se encontra o sinal que, anos a fio, temos desprezado e que de maneira inequívoca apresenta e nos aponta o desenrolar da preparação para o fim.

Ao tratar sobre a vinda de Cristo e a manifestação do anticristo o Apóstolo Paulo nos apresenta dois sinais claros que nos indicaria a proximidade do fim: a apostasia e a operação do mistério da injustiça (2 Tessalonicenses 2:3, 7).

O mundo não vai melhorar, a Igreja não triunfará conquistando os montes e promovendo uma purificação espiritual e moral.

Se você acha que estamos vivendo os piores dias da humanidade tenho uma dura realidade para lhe apresentar: se Jesus demorar mais cem anos para retornar veremos, no transcorrer do século, uma vertiginosa e irremediável espiral decrescente de imoralidade, pecado e iniquidade, em outras palavras, há espaço de sobra para piorar.

Paulo é enfático ao escrever “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim se que antes venha a apostasia” (2 Tessalonicenses 2:3).

O afastamento da verdade e o abandono da fé em paralelo com a operação da iniquidade são sinais claros do fim e quer uma evidência inequívoca de apostasia senão a substituição da figura do Cordeiro de Deus pela deificação de uma figura ideológica política?

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