Somos como Jonas
Quando falamos de Jonas logo nos vem à mente a história do “profeta fujão” e de como este homem, em seu orgulho e egoísmo, tentou se desfazer do chamado divino. Olhamos para este recorte da vida e ministério do profeta e apontamos uma série de clichês sobre vida e missão, entretanto, nos esquecemos que Jonas tem muito a dizer sobre como nós respondemos ao chamado divino.
Notas introdutórias
Antes de tratarmos sobre as semelhanças que podem existir entre nós e o profeta Jonas precisamos, em primeiro lugar, compreender o contexto em que a história se passa, quais são suas características e o que o diferencia dos demais profetas.
Ao contrário dos escritos de profetas como Isaías, Daniel ou Ezequiel, o livro do profeta Jonas é estritamente biográfico. Dos 48 versículos do livro, apenas um é dedicado ao registro da mensagem profética de Jonas.
E esta característica já nos fornece um ponto extremamente necessário para a compreensão da mensagem central do livro e para a compreensão das semelhanças entre nós e o profeta impiedoso.
Outra questão que precisamos destacar é o contexto histórico em que o bíblico está inserido. Conforme o texto de 2 Reis 14.25, o ministério de Jonas se desenvolveu no reinado de Jeroboão II, rei em Samaria entre os anos de 790 a 740 a.C.. Desta forma o profeta viveu entre 40 e 50 anos antes da queda de Samaria e a destruição de Israel em 722 a.C.
Embora não seja possível estabelecer, com precisão, quando o Jonas foi incumbido por Deus para levar a mensagem de arrependimento até Nínive podemos, a partir dos registros e informações que temos, estabelecer o contexto do ministério profético desta personagem bíblica.
Quem eram os ninivitas?
Nínive era a capital do Império Assírio, situada às margens do rio Tigre. Sua origem remonta à Ninrode, filho de Cuxe e bisneto de Noé.
“Desta mesma terra saiu ele à Assíria e edificou a Nínive, e Reobote-Ir, e Calá” (Gênesis 10:11)
O profeta Naum, cerca de 100 anos depois de Jonas, profetiza contra a cidade de Nínive e nos apresenta um panorama das práticas hediondas de seus habitantes.
“Ai da cidade ensanguentada! Ele está toda cheira de mentiras e de rapina! Não se aparta dela o roubo” (Naum 3:1)
Os assírios eram conhecidos no mundo antigo por sua extrema crueldade no tratamento para os povos conquistados.
Ao vencerem seus inimigos, e conquistarem suas cidades, os assírios promoviam chacinas terríveis, os governantes eram torturados e executados, e os prisioneiros de guerra muitas vezes morriam em sua marcha de deportação.
“A tortura, o empalamento, a decapitação, as amputações e o esfolamento faziam parte dos procedimentos comuns dos soldados assírios em relação aos seus adversários.” (SILVA, s/d)
O profeta Naum também declara que Nínive estava repleta de feitiçaria e de imoralidade sexual (Naum 3:4). Os ninivitas não eram apenas perversos, mas também terrivelmente profanos e imorais. O que, de certo modo, nos faz compreender a resistência de Jonas em resistir ao chamado divino.
O servo de Deus que não teme a Deus
“Eu sou hebreu, e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra seca” (Jonas 1:9)
Ao receber a ordem de Deus, Jonas se apressa em seguir na direção contrária. Foge para o mais longe possível embarcando em um navio que seguia até Társis.
Para um hebreu, ensinado desde cedo sobre o temor ao Senhor e a obediência à Sua voz, é de se estranhar que Jonas não apenas tenha seguido na direção contrária, mas também tenha conseguido dormir em sua desobediência.
A declaração que Jonas faz, quando indagado pelos marinheiros, soa terrivelmente oca: uma afirmação sem vida, sem verdade.
O profeta declara: “… temo ao Senhor”. No entanto, seu temor não o direciona à obediência, não lhe impede de afrontar ao Senhor e não lhe retém em sua fuga sobre o mar que o próprio Deus, a quem desobedecia, havia criado.
O temor que não encontramos em Jonas, entretanto, encontramos nos marinheiros que são encurralados pela desobediência do profeta: ou morriam pela fúria das águas ou lançavam ao mar, e à morte, aquele homem.
“Ah, Senhor! Nós te rogamos, que não pereçamos por causa da alma deste homem, e que não ponhas sobre nós o sangue inocente; porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve.”(Jonas 1:14)
Uma oração não tão discrepante assim
Uma leitura superficial do segundo capítulo pode nos levar a pensar que seu conteúdo destoa do restante do livro. Aparentemente nos deparamos com um profeta quebrantado, bem diferente daquele que foge, rejeita o chamado divido e deseja a destruição de Nínive.
Porém, tão logo o profeta é lançado de volta à areia da praia e, novamente, nos deparamos com o mesmo cenário: um homem que ainda insiste em desejar a morte de seus inimigos, que se ira com a misericórdia de Deus e continua abraçando seu exclusivismo religioso.
Ao contrário do que parece, no entanto, a oração do profeta, ainda no ventre do grande peixe, não destoa com todo o contexto de sua biografia, pelo contrário, apenas reforça e revela o comportamento do profeta.
Observando atentamente aos detalhes da oração de Jonas veremos que ela está muito mais próxima de uma repetição ritualística de cantos e salmos do que, necessariamente, de uma expressão profunda de arrependimento. E acrescentando o fato de que, após ser vomitado pelo peixe, o profeta não mudou sua mentalidade, confirmamos que o profeta não se arrependeu de fato.
Encontramos termos e expressões como: “coração dos mares”, “profundo”, “águas”, “abismo”, “fundamentos dos montes”, “ferrolhos da terra” etc.
Diante desta linguagem utilizada pelo profeta entendemos que ele se refere exclusivamente ao mar onde se encontrava, mas não apenas isso. O profeta também reverberava o entendimento hebreu sobre o universo.
Sempre que nos deparamos com expressões como “mar”, ou “muitas águas”, ou ainda “abismo” em salmos ou literatura profética, há agregado à elas conceitos de caos, destruição ou desordem.
Você pode questionar se estamos sendo sinceros em nossa suposição. Afinal, Jonas poderia estar recitando os salmos e versos da lei do Senhor, ou estar orando a partir do que aprendeu da palavra de Deus.
Mas vamos refletir sobre.
Deus chama Jonas e ordena que ele vá até Nínive para pregar o arrependimento. O profeta, porém, segue na direção contrária. Em alto mar, a situação se deteriora como resultado de sua desobediência. Ele é lançado ao mar e engolido por um grande peixe.
E tudo isso por um único motivo: Jonas se recusava a pregar a salvação para os homens e mulheres perdidos em Nínive.
Em um cenário como este qual oração se espera ouvir?
Não deveríamos encontrar um profeta humilhado diante de Deus, clamando para que o Senhor lhe conceda perdão e lhe permita cumprir sua missão?
E quantas vezes lemos, na oração de Jonas, qualquer referência à sua missão ou aos ninivitas? Ou ainda, quantas vezes encontramos termos e expressões que demonstrem o arrependimento do profeta?
Absolutamente nenhuma vez.
Ele desobedece a Deus, mas não ora clamando por perdão. Havia sido chamado para cumprir uma missão, mas em momento algum ele faz menção à ela.
A oração, que muitos entendem como sendo um clamor arrependido, apenas nos aponta o real estado do coração duro e impenitente do profeta.
E, uma vez lançado em terra, o Senhor precisa, mais uma vez, chamar Jonas para anunciar o arrependimento em Nínive (Jonas 3.1-2). Alguém, de fato, arrependido precisaria de uma segunda convocação? Jonas não deveria, portanto, estar com o coração tão quebrantado a ponto de, voluntariamente, obedecer à primeira ordem dada por Deus?
Jonas assenta-se para o espetáculo
Contrariado, Jonas cumpre a ordem do Senhor e prega para os ninivitas. Porém, ao contrário de um evangelista apaixonado pelas almas, ele aguarda ansiosamente não a salvação da cidade, mas a sua destruição.
“Então Jonas saiu da cidade, e sentou-se ao oriente dela; e ali fez uma cabana, e sentou-se debaixo dela, à sombra, até ver o que aconteceria à cidade.” (Jonas 4.5)
No capítulo 3, verso 3, lemos que a cidade de Nínive era tão grande que, para cruzá-la, era necessário três dias de caminhada. Porém, no verso 4, deste mesmo capítulo, lemos que o profeta anuncia sua mensagem em apenas um dia.
Ou seja, ele não se preocupou em pregar para toda a cidade, mas caminhou apenas um terço do tempo que seria necessário.
Além disso, a mensagem de Jonas destoa quando colocamos ela frente a frente com outros textos proféticos. Sempre que Deus chama um povo ao arrependimento, Ele apresenta a maldade que há sem seu coração, o pecado daquele povo, o caminho para a salvação e, por fim, as consequências caso prefiram permanecer no pecado.
Entretanto, Jonas prega apenas a destruição da cidade. “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (3.4). Ele não anuncia a compaixão e a misericórdia de Deus.
Além de não percorrer toda a cidade, o profeta também não se preocupa em apresentar a face bondosa de Deus, pois seu coração não desejava a salvação daquele povo.
Contrariando as expectativas do profeta, no entanto, o povo se arrepende. O rei convoca um jejum e, todo homem e mulher, rico ou pobre, vestem panos de saco, se assentam sobre cinzas e clamam pelo perdão e favor de Deus.
Ao ver tal cenário, o profeta se entristece.
“Ah! Senhor! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.” (Jonas 4:2)
Se Jonas tivesse se arrependido no ventre do grande peixe jamais oraria se lamentando por Deus ser misericordioso e bondoso em perdoar todos aqueles que se arrependem de seus pecados.
Tal declaração apenas revela o ressentimento que havia em seu coração e a falta de compaixão pelos perdidos.
Ele não fugiu para Társis simplesmente para se esconder de Deus, mas porque ele desejava que aquele povo pecador fosse destruído.
Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso.
Enquanto aqueles homens imorais e cruéis alcançavam a graça de Deus, o profeta se entrega à dureza de seu coração, mergulha em seu desejo pela destruição daquela cidade.
Deus não dependia do esforço ou entusiasmo de Jonas
Embora tenha acatado a ordem divina, Jonas não se compromete em anunciar a mensagem como deveria. O próprio texto declara que seriam necessários três dias de caminhada para cruzar a cidade e, ao invés de proclamar o arrependimento Por três dias, Jonas dedica apenas um.
Apesar disso, no entanto, o Senhor se compadece daquele povo e revela para o profeta que Ele não necessita de homens para cumprir seus desígnios. Mesmo que o profeta tenha tentado boicotar os planos de salvação, o Senhor estendeu de Sua graça e misericórdia para os ninivitas.
Cego por seu orgulho exclusivista, Jonas se esqueceu que é Deus quem detém o poder para salvar e, da mesma forma que Ele havia separado um povo para si, Ele também poderia salvar tantos outros.
Embora pouco empenhado em anunciar a salvação para aquele povo, a mensagem do profeta ainda assim frutificou e Deus se comprometeu em salvar aquele povo da destruição.
A história de Jonas nos revela que não há homem algum que tenha poder para se opor aos propósitos eternos. Ninguém pode resistir à soberania divina e, muito menos, impedir que os planos do Senhor prevaleçam.
Jonas, o arauto da desgraça
Jonas não anunciou as boas novas da salvação, pois ao anunciar a desgraça e a destruição que estava reservada para Nínive ele pretendia espantá-los da misericórdia divina.
Embora saibamos que Deus há de julgar vivos e mortos, Cristo nos chamou para anunciar as boas novas, a bendita esperança e a graça misericordiosa do Pai Eterno.
O problema, contudo, não está em anunciar o juízo vindouro, ou o terrível estado de condenação em que se encontra o perdido, porém se não houver a proclamação da salvação e o desejo de Deus em perdoar os pecados estaremos apenas anunciando uma má notícia.
O alicerce do Evangelho está pavimentado na mensagem de que o Reino de Deus chegou até nós e que, em resposta à manifestação do Santo, somos chamados ao arrependimento.
É inevitável, contudo, deixarmos de tocar em questões referentes ao juízo, à justiça e à ira de Deus.
Quando o Santo toca o impuro, o Atemporal aproxima do temporal, se não houver a mediação de Cristo, tudo o que teremos é pavor e terror.
Como escreve Sproul, em seu livreto “Deus é Santo”, há um trauma da santidade gravado em nossa alma pecaminosa que nos impele para longe de Deus.
“Santidade provoca ódio. Quão maior a santidade, maior será a hostilidade humana contra ela.” (SPROUL, 2014, pag. 58)
Por outro lado, há a graça de Deus, manifesta em Jesus Cristo, que nos permite aproximar do Santo dos santos. E, por intermédio desta graça, já não mais respondemos com terror e ódio.
Porém, ao contrário do que um profeta faria ao levar a mensagem de arrependimento, Jonas apenas apresenta a santidade de Deus e a sua ira sem, contudo, revelar o perdão e o chamado ao arrependimento.
Jonas hoje
Hoje, eu e você, não precisamos deixar nosso povo para anunciar a mensagem de salvação. A grande verdade é que já vivemos em Nínive. Podemos nos assustar ao ler as declarações da crueldade dos ninivitas, mas nossa sociedade não é diferente em absolutamente nada.
E, tal como o profeta, também somos tendência dos a desenvolver em nosso coração o ódio pelo pecado, a ira pela perversidade humana. Ficamos horrorizados com a naturalidade da transgressão e como os homens, tranquilamente, blasfemam a Deus em suas vidas.
Não estamos livres de, assim como o profeta, desejar o derramamento da ira de Deus sobre os pecadores. Quantos de nós já fez a mesma petição dos filhos de Zebedeu? Quantas vezes já desejamos que fogo do céu fosse derramado e consumisse aos iníquos?
Entretanto, não fomos chamados para exigir o juízo, fomos chamados para pregar a salvação que há em Cristo Jesus e que está disponível a todos por meio do arrependimento pela fé.
Não é de nossa responsabilidade sentenciar os ímpios por seus pecados. Mas isso não significa que devemos nos calar e aceitar o pecado. Ao contrário disso, inevitavelmente, como testemunhas de Cristo, iremos confrontar a iniquidade.
Porém, apresentar o caminho da salvação em Jesus chamando o pecador para o arrependimento é totalmente diferente de clamar para que Deus derrame fogo sobre as cabeças dos ímpios.
Não temos o direito de determinar que é ou não digno de receber a mensagem. Esse papel não cabe a mim e nem a você!
Conscientes disto precisamos, com humildade de coração, rogar para que o Senhor Deus nos auxilie em nossa iniquidade, quebrante nossas convicções e derrame de Seu amor pelos perdidos.
Não podemos seguir o mesmo caminho de Jonas, não devemos desejar a morte do ímpio sabendo que, ao morrer, ele estará condenado ao inferno, não podemos nos alegrar com a destruição e nos entristecer com a graça de Deus.
Que Deus nos auxilie a desenvolver um coração que se alegre com o filho que volta para o lar e com o pecador que se arrepende. Pois há festa nos céus quando a salvação é derramada sobre os homens.
Referências bibliográficas
SILVA, Daniel Neves. Origens dos assírios. História do Mundo. Disponível em: https://www.historiadomundo.com.br/assiria/origens-assirios.htm. Acesso em: 3 de agosto de 2025.
SPROUL, R. C. Deus é santo! Como posso me aproximar dEle? São José dos Campos: Editora Fiel, 2014. Disponível em: https://amzn.to/46AJhwf