Os humilhados não serão exaltados

"Pois os que se exaltam serão humilhados, e os que se humilham serão exaltados." (Lucas 14:11)

Ao contrário do que o ditado amplamente difundido no meio popular declara, os humilhados não serão exaltados e, a partir de uma interpretação contextualizada deste verso, vamos compreender porque tal entendimento é equivocado.

Qual o contexto da passagem?

Existem duas passagens bíblicas que podem sustentar a ideia de que os humilhados serão exaltados. A primeira se encontra em Lucas 14:11, a segunda é 1 Pedro 5:5,6.

Entretanto, por mais que ambos os textos tratem de humilhação e exaltação, ao contrário do entendimento popular, os dois apontam para uma direção completamente diferente.

Os que se exaltam serão humilhados.
O texto de Lucas narra que, antes de propor uma parábola, "[...] Jesus observou que os convidados para o jantar procuravam ocupar os lugares de honra à mesa..." (v. 7).

Em nossa cultura, tal observação pode soar um tanto descolada da realidade. No dia a dia sequer nos preocupamos com qual lugar assentamos em um jantar. Entretanto, nos tempos de Cristo, a realidade era outra.

"Em sua época, os convidados de um jantar formal reclinavam-se em [uma espécie de] sofás, vários em cada um, apoiados no cotovelo esquerdo." (LIEFELD, 1984)

O anfitrião se assentava à cabeceira e os convidados, ao redor dele, se organizavam assentados em forma de "U" de forma que, os lugares mais próximos a ele, fossem ocupados pelos convidados mais importantes do jantar.

E então Jesus declara:

"Quando você for convidado para um banquete de casamento, não ocupe o lugar de honra. E se chegar algum convidado mais importante que você?" (Lucas 14:8)

Não apenas neste texto, mas também em outras passagens encontramos repreensões de Cristo direcionadas aos que buscavam a própria honra assentando-se nos melhores lugares da ceia e sinagogas (Mateus 23:6; Lucas 11:43).

Humilhem-se sob o poder de Deus
O texto de Pedro, por sua vez, começa com orientações práticas do apóstolo direcionadas aos líderes do rebanho de Cristo.

Ele pede para que os presbíteros cuidem das ovelhas de Deus sem má vontade ou interesse pessoal (1 Pedro 5:2) e que não abusem da autoridade que lhes foi constituída pelo Senhor (v. 3).

Ao se direcionar aos jovens, o apóstolo lhes orienta para que sejam submissos e humildes aos mais velhos (v. 5) e, aplicando à toda congregação, declara que "Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes" (v. 5).

Por fim, chegamos à declaração do apóstolo no verso seis: "Portanto, humilhem-se sob o grande poder de Deus e, no tempo certo, ele os exaltará".

Uma vez que o Senhor se opõe aos orgulhosos é, ou espera-se que seja, natural que a resposta do cristão o leve a caminhar na direção oposta e se humilhar diante de Deus.

Os que se humilham

Tanto no texto de Lucas, quanto nas orientações pastorais da epístola de Pedro, nos fica claro que a humilhação apresentada não é externa, mas brota do coração do discípulo que é pobre de espírito e que reconheceu a necessidade da graça de Deus.

Alguns capítulos adiante, em Lucas, Jesus apresenta outra parábola. Desta vez ele nos coloca diante de um cobrador de impostos e um fariseu (Lucas 18:9-14).

Ambos subiram até o templo para adorar a Deus, mas enquanto o fariseu se exaltava por suas obras, o publicano reconhecendo seu pecado, sequer ousava levantar o rosto.

Jesus então concluí afirmando que "foi o cobrador de impostos, e não o fariseu, quem voltou para casa justificado diante de Deus. Pois aqueles que se exaltam serão humilhados, e aqueles que se humilham serão exaltados" (Lucas 18:14).

A humildade cristã, portanto, não é (e não pode ser) simulada. Não é algo que se força ou desenvolve naturalmente e nem ainda provém de uma fonte externa. Ela é o movimento do coração quebrantado, cheio do Espírito Santo e que se curva diante de Deus suplicando por graça e favor.

Enquanto no reino dos homens o que se valoriza é a autopromoção, no Reino eterno, quem a si mesmo se exalta é abatido.

A aplicação que Jesus faz em Lucas 18 nos fornece a base do entendimento para compreender que Deus não está interessado em nos exaltar nesta terra entregando bens materiais, humilhando aqueles que nos perseguiram e, nem mesmo, nos fazendo assumir cargos de relevância nos reinos deste mundo. Não se trata de "dar a volta por cima".

O Mestre declara que "foi o cobrador de impostos, e não o fariseu, quem voltou para casa justificado diante de Deus". Aquele homem se humilhou debaixo das mãos do Senhor e o próprio Deus se encarregou de exaltá-lo derramando sobre ele a justificação de seus pecados.

A humilhação é necessária na caminhada cristã

Perseguições, provações financeiras, sofrimentos terrenos e adversidades fazem parte das tribulações que, naturalmente, enfrentamos tanto por viver em uma realidade caída, quanto por amar ao Senhor Jesus.

Aceitar tal realidade se torna, portanto, evidência da compreensão de que precisamos nos humilhar debaixo da mão do Senhor.

É por meio das adversidades da vida que nós somos moldados à imagem de Cristo Jesus. Não desejar passar pelo deserto é, em última caso, rejeitar a forja de Deus.

Da mesma forma, acreditar que estamos sendo exaltados quando recebemos bens materiais e reconhecimento humano é reduzir a grandiosidade das bênçãos espirituais. Estou dizendo que não podemos ser abençoados nestas áreas? Não, pelo contrário.

Entretanto, reduzir o agir de Deus em nosso favor e sua resposta à nossa humilhação aos bens desta realidade é se colocar no perigoso estado de vulnerabilidade e engano sob os quais o diabo operou em sua tentação contra Cristo no deserto.

Jesus poderia ter recebido a exaltação (nos termos mundanos de riqueza, poder e fartura) proposta pelo diabo. Afinal, de acordo com a mentalidade mundana, depois de quarenta dias se humilhando debaixo da mão de Deus, que mal faria?

Entretanto, Ele sabia que pão e a glória do mundo eram infinitamente inferiores à grandiosidade do propósito que o Pai lhe havia preparado.

Por fim, encerro declarando que a vida cristã é marcada por muitos mais momentos de humilhação do que de exaltação terrena. Não espere ser aplaudido(a) no mesmo mundo que crucificou ao Mestre.

Entender esta realidade nos conduzirá à uma maturidade sólida e alicerçada na certeza de que, indiferente das circunstâncias passageiras, tudo coopera para o nosso bem.

Referências Bibliográficas

LIEFELD, Walter L. The Expositor's Bible Commentary: Matthew, Mark, Luke. Organizado por Frank E. Gaebelein. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1984. v. 8.